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Corria o ano de 2004 e o
Planeta Pesca tinha decidido fazer um
artigo sobre a pesca à no
litoral de Cascais, mais precisamente sobre a Boca do Inferno,
porque nos parecia que a pesca ali praticada representava num
modo microscópico o que de pior ainda se vai encontrando na
pesca nacional um pouco por todo o território, ou seja pouca
higiene, má educação, atropelos à lei de pesca... ![]() Boca do Inferno em Cascais
Estamos no ano de 2007, no
mesmo mês em que o artigo foi publicado à três anos, temos uma
nova lei de pesca desportiva com tempo suficiente para toda a
gente a conhecer, incluindo as autoridades responsáveis pela
fiscalização e decidimos ir ao local para comparar a "evolução"
das mentalidades e maneiras do pescador português.
Infelizmente e em diversas
idas ao local para bem documentar este artigo em termos de
ideias e fotografias, a coisa está mais ou menos igual,... ou
melhor... está concretamente pior! ![]() 3 anos e a imagem é a mesma, mau cheiro, dezenas de canas lado-a-lado (para guardar lugar!), porrada para quem mandar uma boca ou não tiver lugar cativo...
A zona até recebeu um
investimento importante para recuperação estética e
aumento da segurança, dado que diariamente ai ocorrem dezenas de
camionetes de turistas e ainda está no capital patrimonial de
interesse turistico de Cascais.
Ainda sobre os atropelos e
falta de sensibilidade num ano dramático para a ecologia
piscatória, num outro local do nosso querido país, o nosso
colaborador Gomes Torres conta-nos:
É referido na
notícia que os cerca de 450 kg de pescado foram
capturados nas albufeiras e rios da região, por pescadores
voluntários, alguns deles ligados à organização.
Tudo isto poderia
ser muito positivo, se não tivesse ocorrido em pleno defeso
reprodutivo da maioria das espécies que são referidas. Com
efeito, a Lei da Pesca de 1962, refere no seu artigo 29º, o
seguinte “Nas épocas a seguir mencionadas (15 Março a 15 de Maio)
fica expressamente proibida a pesca por todos os processos, das
espécies abaixo indicadas: d) Achigã, carpa, barbo, boga, tenca,
pimpão, bordalo, panjorca e escalo - de 15 de Março a 30 de
Junho, inclusive”.Ninguém da organização se lembrou deste
pormenor…
Refiram-se ainda
alguns pormenores desta surreal notícia “Foram
pescados à linha e à mão (é permitido?) para atingir os 450 quilos
necessários...
Também ficamos a
saber que é " necessária
muita cebola, azeite, alho, pimento vermelho, tomate, sal, poejo
do rio, ovas do peixe e vinagre".
Além disso "Para
acompanhar a sopa, a cozinheira serviu albúrrios
fritos, um peixe
exótico que foi recentemente introduzido nas barragens de
Castelo de Vide".
Esta Mega Sopa de
Peixe, que acredito tenha a melhor das intenções em termos de
divulgação regional e das suas tradições acaba por ser, como se
verifica, uma enorme ilegalidade, coma agravante de ter na sua
organização pessoas da autoridade, sendo elas próprias
pescadoras e conhecendo por isso a Lei da Pesca.
Vale a pena
perguntar:
- Ninguém comentou
que era proibido pescar peixes destas espécies, neste período do
ano?
- Os senhores
pescadores da organização não sabiam que não se pode pescar
neste período do ano?
-Onde estão os
guardas do SEPNA?
Numa época em que
se constatam decréscimos significativos, ano após ano, dos
efectivos piscícolas, entre outros motivos devido à predação
humana e à poluição crescente e impune dos nossos rios,
constatamos que as ovas são utilizadas na confecção de uma
saborosa sopa de peixe. Ou seja, continuamos a matar os pintos
ainda no ovo da galinha, desperdiçando e maltratando os nossos
recursos.
Apetece acrescentar
mais uma vez: Portugal no seu melhor!
Marcos Palmeira e
Gomes Torres
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