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Dia 1 de Março de 2004, 7:00 horas da manhã. Finalmente, cheguei
à beira d'água, as primeiras luzes da alvorada emprestam matizes
prateados às águas cristalinas e o omnipresente cheiro do rio
(aquela mistura de aromas que nos enchem os pulmões e inebriam
de felicidade) compensam largamente uma sofrida espera de longos
meses de abstinência.
As mãos, nervosas, apressam-se na montagem do equipamento, em
fazer nós, e tudo decorre com uma exasperante lentidão quase
como que se as trutas não perdoassem os menos habilidosos ou os
mais preguiçosos.
O primeiro lançamento é um desastre! As mãos estão tolhidas,
enferrujadas pela falta de prática e penso baixinho: vá lá, vê
se te concentras...!

Mais dois ou três lançamentos e tudo volta ao que era antes,
fluidez, precisão e harmonia. Passados dez minutos, naquela
velha e amiga corrente, a mesma de sempre, a primeira truta
debate-se vigorosamente, desta vez em vão, pois acaba por vir
parar às minhas mãos e enfrentar estoicamente a objectiva da
câmara fotográfica que teima irritantemente em se perder entre
os mil e um bolsos que me infestam o colete. Resultado? 35
centímetros de beleza intocada e selvagem...!
Uma outra vez me assalta a sensação de que tudo está certo, de
que o mundo tem um sentido, e de que as coisas retomam o seu
devido lugar no seio da criação, incluindo eu próprio.
Felizmente há trutas...! Felizmente existe o rio Côa...!
Crónica De Uma
Morte Anunciada
Este poderia ter sido o relato de pesca de uma
possível abertura, num não menos possível rio Côa. Mas,
infelizmente, nunca mais poderá ser assim. Ao longo dos tempos,
o rio Côa sobreviveu a tudo. Resistiu às bombas de foguete,
encheu as redes clandestinas, desintoxicou-se das lixívias,
sulfatos e venenos artesanais, aguentou com as marras e
armadilhas e, como se tudo isto não bastasse, até aos
prolongados e asfixiantes estios de Agosto conseguiu dizer que
não. Uma vida
inteira não seria suficiente para escrever o
historial de atentados que estas correntes, de água fresca e
pura, sofreram ao longo dos tempos. No ano de 1755, escrevia o
pároco de uma das freguesias ribeirinhas, em resposta a um
inquérito feito na altura, devido ao terramoto que abalou o
país, que aquela ribeira era muito boa de peixe. E mais seria
ainda, se os homens respeitassem as leis do reino.

Mas os homens não cruzaram os braços. E a crónica desta morte
anunciada abriu novo capítulo quando no ano de 1971 pude
apreciar deleitado, na minha ingenuidade de criança, os
primeiros traços no papel daquilo que viria a ser, 30 anos mais
tarde, a albufeira do Sabugal.
Finalmente, o rio Côa soçobrou! Sucumbiu aos interesses do
país.
Morreu afogado!
Daquilo que, nesses tempos, se prolongava até à Cerdeira do Côa
e que talvez perfizesse cerca de 50Km de rio repleto de trutas
genuínas, apenas sobrou uma vintena de quilómetros. Uma terça
parte do paraíso.
Que não doa a consciência a ninguém pelo facto de a barragem do
Sabugal e a poluição impune terem decretado a morte do Alto Côa.
Fomos todos nós, uns pela indiferença, outros pela ganância,
outros ainda por incúria, que contribuímos para o actual estado
de desgraça em que caiu este tesouro ecológico e turístico que a
todos pertence.

Ou
será que ninguém sabia que este troço de rio era sinónimo de um
ecossistema - dos mais delicados que
possa haver – único
em toda a zona raiana e só igualado por meia dúzia de cursos de
água em todo o País ou, mesmo até, em toda a Península?
No ano passado, na Freguesia de Quadrazais, em conversa com um
emigrante que me confessava ter pescado por quase toda a Europa,
afirmava ele que este nosso Côa era o melhor rio truteiro de
entre todos aqueles que conhecia. Só Deus sabe quanta razão ele
tinha!
Cuidar Sim, Repovoar Não...!
Pois
é, mas agora já não há Côa. Ou melhor, resta pouco mais de uma
dúzia de quilómetros, uma boa parte deles sob a gestão de uma
Associação local de caça e pesca, a qual não parece estar a
fazer uma gestão adequada à presente realidade.
Isto porque o aumento da população truteira e a obtenção de uma
pesca de qualidade terá que ser conseguida mediante uma
conservação eficaz do rio para que passe a haver mais protecção,
mais postos de alimentação e refúgios para o peixe, e não
através de uma gestão qualquer, assente em repovoamentos
sistemáticos, feitos de forma sistemática.
De um modo geral, os repovoamentos, quando feitos de forma
esporádica, não trazem consigo grandes prejuízos, o grande mal
reside nos repovoamentos periódicos e repetidos a médio e longo
prazo, estes sim nocivos ao ecossistema.
As consequências resultantes desta prática traduzem-se quase
sempre numa deslocação dos postos de caça, na redução da
reprodução natural dos efectivos, ao mesmo tempo que provocam
uma substituição das populações autóctones, sobretudo quando a
qualidade das águas não está ao seu melhor nível.
Outro dos efeitos possíveis é a hibridação, com todos os males
que ela acarreta: produção de exemplares híbridos incapazes de
reprodução, perda da identidade genética da população nativa,
destruição dos complexos genéticos existentes, etc... Por outro
lado, quando a administração central, ou qualquer outra
entidade, repovoa os nossos rios com exemplares provenientes de
viveiros ou de outros rios, tentando desta forma fazer face à
pressão de pesca existente, não está a gerir o rio, mas sim a
gerir os pescadores! Todas as trutas introduzidas pela mão
humana no rio Côa deveriam ser obtidas a partir dos ovos de
exemplares reprodutores nativos capturados no próprio rio ou,
quando muito, provenientes da mesma bacia hidrográfica.
Se esta é uma certeza reconhecida e aceite por qualquer biólogo
do mundo inteiro, porque continuamos a repovoar com material
genético de origem duvidosa? As trutas do Côa possuem (ou
possuíam...) características genéticas que lhes permitiam
sobreviver e adaptar-se perfeitamente aos condicionalismos
próprios do rio em que nasceram. Temo pelo futuro daquela truta
enérgica e combativa a que todos estávamos habituados.

O Pacote...!
O que resta do Rio Côa ainda poderá vir a ser a
“catedral” da pesca à truta no nosso País. E para que isso se
torne possível num futuro próximo é urgente tomar medidas
correctoras. Eis o “pacote” de medidas que é urgente
implementar:
1. Eliminar
radicalmente as fontes de poluição do rio, ou seja, melhorar o
tratamento de águas residuais e eliminar os vertidos directos ou
efluentes resultantes de esgotos domésticos e industriais.
(note-se que existem apenas 4 povoações capazes de poluição ao
nível da rede de esgotos!)
2.
Conseguir, junto da administração central, a
gestão da totalidade do rio que sobreviveu à barragem do Sabugal
(esta foi outra das calamidades ambientais) e entregá-la a uma
entidade que goze de autonomia financeira, idónea, responsável
e com experiência em matéria de gestão piscícola e ambiental
(sugestão: Câmara Municipal do Sabugal, que constituirá para o
efeito uma comissão gestora da concessão).
3. Decretar
o encerramento da pesca desportiva na totalidade do rio até que
a população autóctone se restabeleça e atinja um número
considerável de exemplares capazes de fazer face à consequente
pressão de pesca.
4. Melhorar
o habitat através de: reabilitação dos ribeiros de desova,
construção de abrigos e obstáculos “naturais”, controlo da
acidez/alcalinidade da água, limpeza das margens e manutenção do
leito do rio, reconstrução dos açudes, regulação do uso de água
para rega.
5. Proibir
definitivamente a pesca em todos os afluentes do rio
considerando-os como zona de abrigo e desova.
Estabelecer troços de rio em que apenas se possa praticar a
1. Modalidade
de pesca com mosca artificial e sem morte. Proibir o uso de
iscos naturais.
2. Nos
restantes troços, permitir apenas e ocasionalmente a captura de
um exemplar troféu a cada pescador e em cada dia.
3. Aumentar
a medida mínima de captura de 19cm para 30cm.
4. Cobrar
uma taxa de licença diária a cada pescador no valor de 400$00
para residentes no concelho e 1.000$00 para os restantes.
5. Decretar
um período hábil para a pesca desportiva compreendido entre 15
de março e 30 de Setembro.
Obviamente, tal como todos já deverão ter percebido, estas
medidas não surtirão qualquer efeito se não forem acompanhadas
de uma rigorosa e constante fiscalização dos pescadores.
Perdoem-me o desabafo, mas, no que toca a pesca desportiva,
tenho vergonha de ser Português! Ao que parece, as primeiras
referências à pesca sem morte surgiram em 1915 pela mão de um
pescador, J. C. Mottram, que escrevia na altura: “uma truta é
demasiado formosa e nobre para ser considerada simplesmente
comida”. Ou de um outro pescador famosíssimo, Lee Wulff, que
escreve em 1939, na sua obra “Hand Book of Freshwater
Fishing” “um peixe desportivo é demasiado valioso para
ser pescado uma só vez”. O primeiro troço de pesca sem morte
em Portugal aparece no ano de 2001, na Ribeira de Moimenta,
Concelho de Cavez, pela mão da Associação Portuguesa de Pesca à
Pluma – APPP (honra seja feita ao seu nome). Estamos, portanto,
atrasados 87 anos...!!
A educação e a reconversão de mentalidades também
não deve ser descurada. Através de uma acção concertada ao nível
da Câmara Municipal, Escolas, Instituições governamentais,
Associações e Clubes de pesca, podem ser produzidas acções de
formação e sensibilização, dirigidas aos jovens e futuros
pescadores que frequentam
as escolas do concelho.
As infra-estruturas até existem! As instalações situadas à
beira-rio, actualmente destinadas à produção de trutas
arco-íris, depois de reconvertidas para o efeito, seriam um
excelente local de aprendizagem e um verdadeiro local de culto.
Por outro lado, e eu sei que isto fala ao ouvido de muito
administrador, falemos em números...
Depois de implementadas com sucesso as medidas referidas, não
será muito difícil conseguir uma afluência diária de 40
pescadores (20 residentes + 20 nacionais). Praticando as taxas
acima referidas, daí resultará uma facturação anual de cerca de
21.450 € , o que significa poder pagar o vencimento de 14 meses
de dois Guarda-rios com subsídio de férias e de Natal incluídos.
É por demais óbvio que os custos inerentes à manutenção de
veículos e do próprio rio são largamente compensados pela
imensidão de pescadores daí resultante.
Afinal, o Sabugal sempre teve um tesouro turístico a correr-lhe
aos pés!
Pensem nisso... Vão ver que os empresários e comerciantes em
geral, a população que desfruta do rio e também os peixes, vão
agradecer...
Acabo de visitar o website oficial da Câmara Municipal do
Sabugal (na versão inglesa) e é com um misto de mágoa e revolta,
provocado, quem sabe, pela ignorância de quem escreve, que leio
as seguintes palavras: “A presença do rio Côa não é somente e
apenas uma fonte de beleza. É também o lugar ideal para a
prática de desportos e actividades recreativas, das quais, a
pesca da truta é particularmente recomendada.”
por Maia Lopes
Manchetes
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Setembro 2004 (Palhaçadas no litoral Português...)
Deveriamos repensar certas atitudes durante a
pesca?
-
Abril 2004 (Os
primeiros seis meses)
Balanço dos primeiros meses de actividade do
PlanetaPesca
-
Fevereiro 2004 (Estamos
em época de feiras...)
Visita aos váriso certames que aconteceram
nesta altura do ano
- Janeiro 2004 (Peixes ao frio!!!)
A pesca vista no meio do Inverno
- Dezembro 2003 ( Taça do Mundo de Pesca
ao Achigã )
Reportagem sobre a I Taça do Mundo do Achigã
- Novembro 2003 ( Previsão: Taça do Mundo
de Pesca ao Achigã)
Previsão
do evento Taça do Mundo ao Achigã
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