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Há alguns anos que
me debruço sobre gestão da pesca em massas de água doce. Tenho
acompanhado o que se faz por esse mundo fora e estudado mais de
perto o impacto que um defeso reprodutivo tem nas populações de
achigã.
Uma certeza clara
que me vem desse meu interesse é que o defeso como está aplicado
em Portugal tem poucos efeitos práticos e é fácil perceber
porquê. Uma medida generalista não pode ser estendida a todo o
território nacional. Uma das primeiras regras da chamada gestão
pesqueira é que se tome cada massa de água por si própria e se
estude a melhor maneira de potenciar as espécies que mais
interesse têm para os pescadores que as procuram.

A gestão
pesqueira aponta para o conhecimento prévio e profundo de três
realidades: a água, os peixes e o Homem.
É necessário estudar
que tipo de água presente quer nas suas características
físico-químicas quer na ocorrência de certo tipo de plankton,
como ainda que tipo de estruturas e coberturas estão presentes.
Depois temos de perceber que populações de peixes temos, como
interagem, que tipos de populações existem e quais as espécies
que mais interesse têm desportivamente. É aqui que passamos para
o predador de topo – o Homem – que deve ser estudado também
enquanto agente activo no sistema sob análise.
Deste ponto de vista
é fácil perceber que nada disto foi feito quando, em 59, se
elaborou a Lei de Bases ou, em 62, o Decreto Regulamentar que
vigoram… Já nem vou falar do desfasamento temporal porque esse é
mais que óbvio.
O defeso imposto
para os não-salmonídeos no nosso país inclui dois meses, o que é
manifestamente exagerado, para qualquer espécie se reproduzir.
Torna-se penoso para os pescadores e agravante para toda a
indústria que vive desta actividade. Claro que por si só este
não é um argumento válido para que se reveja o defeso, mas a
verdade é que não se vê vantagem num sistema generalista deste
tipo.

Se olharmos para os
EUA, país de origem do achigã, veremos que quase não existe
defeso e onde existe não passa de uma inibição de retenção, isto
é, pesca sem morte. Se por lá se consegue um tipo de gestão sem
interrupção de pesca com o êxito que se conhece é porque devem
estar no caminho certo.
Na realidade nos EUA
tudo é planeado caso a caso havendo projectos macro para aplicar
a todo um estado e depois planos concretos, para se atingirem as
metas do macro, que vão gerir caso a caso.
No nosso país
estamos confinados a duas grandes divisões a dos salmonídeos e a
dos ciprinídeos, o que coloca a espécie mais procurada pelos
pescadores desportivos – o achigã – completamente fora dos
planos. Isto não parece correcto.

Temos de dar os
passos recomendados pela gestão pesqueira, estudar as nossas
águas, os peixes presentes e os pescadores, estes últimos não
apenas da perspectiva dos seus hábitos actuais, mas da relação
que possam estabelecer com cenários futuros. Por exemplo, se um
determinado troço de rio é mais propenso à presença de outras
espécies, qual seria a hipótese de os pescadores responderem
positivamente a esse novo tipo de pesca.
Um caso a pensar
seria aproveitar determinados troços a jusante de barragens,
mesmo no Alentejo e especialmente no Alentejo, para se fazerem
zonas de pesca de truta geridas por uma entidade local. Imaginem
o que isto poderia dar em termos de pesca. As águas provenientes
das descargas são frescas e, já não digo a truta fário, mas a
truta arco-íris poderia ser recolocada com êxito em sistemas
destes proporcionando um novo tipo de pesca que poderia ter
algum público e até turismo associado.
Mas voltemos ao
achigã. Numa determinada massa de água, o grosso da coluna
desova numa semana e necessita de mais uma semana para proteger
os alevins, não seria suficiente proteger a espécie com um
defeso de pesca sem morte nesses quinze dias? Se aliarmos esta
medida de gestão a um limite diário e a um slot limit, ou uma
medida mínima e outra máxima, teríamos um sistema gerido sem
necessidade de parar a pesca por dois meses. Um slot limit é uma
das formas de gestão avançadas que se usa muito nos EUA e que
consiste em, depois de se estudar a espécie numa determinada
massa de água e de se tornar perceptível a estrutura do
crescimento dos exemplares presentes, não permitir a retenção de
exemplares na fase de crescimento lento que normalmente se situa
entre os 30 e os 40 centímetros. Estes slot limits são
coadjuvados por um limite diário de alguns exemplares, dois ou
três acima e abaixo deste intervalo, podendo haver mais um
limite de um peixe apenas acima dos 40 centímetros.

Claro que é
necessário estar sempre em cima do acontecimento continuar os
estudos com monitorizações ao longo do ano para se ver se a
gestão é correcta, caso contrário há que estudar alternativas e
pô-las em funcionamento.
Quanto à ausência de
um defeso reprodutivo, alguns dirão que coitadinhos dos peixes
«querem reproduzir-se» e não podem… Não acho mais grave do que
eles «quererem viver» e terem de morrer. Não vamos entrar pelos
coitadinhos dos peixes ou então abandonamos a pesca de todo.
Olho para o achigã como uma espécie, muito especial para nós que
o pescamos por prazer, para os que gostam de o comer e por
outros motivos muito diversos, mas é uma espécie. Não me parece
que seja correcto avaliarmos o achigã como um indivíduo, muito
menos como uma pessoa, como alguns fazem. Há até quem o trate
por amigo e depois o coma… Sejamos sérios. Trata-se de um animal
muito especial pelo lugar que ocupa no topo de uma boa parte das
cadeias tróficas das nossas massas de água, mas, mesmo assim, um
animal. O que nós gostamos neste peixe é de o pescar. Qual então
a razão de nos vermos privados desse prazer? Se fosse uma
espécie frágil teríamos de repensar e arranjar um defeso, não
reprodutivo, mas de manutenção. Não é o caso.
Em relação às
ninhadas que são predadas pelas percas-sol, pelos outros achigãs
e mesmo pelos ciprinídeos presentes, quando um progenitor é
retirado à guarda dos ovos ou dos alevins, tenho presente um
estudo do início dos anos 90 que apontava como suficiente para
meio hectare que um ninho fosse bem sucedida… Estes números são
irrisórios a comparar com o que acontece ainda hoje. O nosso
problema é sacar-se da água aos vinte e aos trinta peixes de
cada vez, porque se libertarmos os peixes durante a fase de
desova, pelo menos esses continuam lá.
De uma vez por todas
vamos olhar para o nosso desporto como uma actividade digna sem
fundamentalismos e sem qualquer tipo de exagero. O que deve
preocupar e interessar quem gere é a manutenção de exemplares
saudáveis em dimensões pescáveis de forma a satisfazerem os
pescadores que pagam as suas licenças, as taxas e os impostos
inerentes à sua actividade.

É claro que a Lei
que existe tem de ser cumprida e aplicada e é pena que as
entidades fiscalizadoras não actuem mais.
Enquanto não houver esses estudos e a gestão caso a caso não for
uma realidade o que nos resta é cumprir a medida que temos como
única na defesa da espécie. Sim, porque me preocupa a verdadeira
defesa da espécie como fica afirmado. O que interessa é que
todos possam pescar cada vez mais, melhor e maior. Que estes
ávidos turistas deixem o fruto do seu trabalho nas unidades de
hotelaria, restauração e até de outras actividades ligadas à
pesca, nas aldeias, vilas e cidades da beira de água do nosso
país. Se não houver o que procuram, depressa tudo ficará «às
moscas».
O pescador é cada
vez mais um turista ecológico pela sua ligação à natureza e pela
forma como privilegia esse contacto. Aumentem-se as licenças,
reservem-se águas, façam-se concessões, limitem-se as capturas,
imponham-se outros limites, enfim faça-se uma gestão correcta,
mas, por favor, deixem pescar quem quer pescar!
Hermínio Rodrigues
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Previsão
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